O Brasil é o país mais ansioso do mundo e a culpa pode ser nossa

O Brasil é o país mais ansioso do mundo e a culpa pode ser nossa
16 de setembro de 2019 Gabriela Ruegger
Mulher com crise de ansiedade

Participei recentemente do Fórum de Benefícios da Aon e entre os painelistas estava o Michael Kapps, fundador da TNH Health, empresa voltada para inovação e tecnologia em saúde mental.

Achei interessante o início da abordagem dele. Ele é americano e ao chegar no Brasil, assim como quase todos os estrangeiros, se encantou com o “jeito brasileiro de ser”. Pessoas felizes e alegres aqui e acolá.

Mas depois de estudar um pouco mais a fundo esse nosso jeitinho ele ficou chocado ao saber que somos o país com o maior número de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo. Ou seja, nossa saúde mental não é tão boa quanto parece.
Ansiedade por si só é um sentimento relativamente positivo, porque nos prepara para enfrentar situações de perigo e nos ajuda a crescer. Quando há um transtorno, passa a ser um problema e gera um sofrimento excessivo.

Qual é a causa de tanta ansiedade?

Estudiosos tentam buscar uma explicação e apontam a violência, a crise econômica e a desigualdade social como principais causas para essa crise de ansiedade instalada no país. Eu tendo a discordar.

Meu palpite é que os altos índices de doenças mentais estão diretamente relacionados à extrema pressão que vivemos. Tudo é para ontem: demandas simples, complexas, urgentes ou não. Além do ritmo acelerado em que as informações circulam, há cada vez menos tolerância. A rotina de todo mundo não permite que a gente erre, se atrase ou tenha compromissos pessoais que impeçam dedicação maior ao trabalho.

E isso é tão contraditório porque, de acordo com a pesquisa de benefícios da Aon (realizada com mais de 600 empresas brasileiras), os benefícios mais valorizados atualmente são aqueles que trazem mais liberdade: horário flexível; short Friday; home-office.

Como podemos querer horário flexível se quando estamos na outra ponta, solicitando demanda, não temos paciência para aguardar ou não conseguimos compreender a dor do outro?

Estou nesse grupo de pessoas com transtorno de ansiedade. E não por acaso estou falando disso em setembro, mês da prevenção ao suicídio e campanhas de saúde mental. Ainda assim, acho que não estamos dando a devida atenção a esse tema.

É espantoso saber que, por ano, 800 mil pessoas no mundo cometem suicídio! E mais: no Brasil, os transtornos mentais serão a principal causa de afastamentos do trabalho no ano que vem. Estamos preparados para entrar em 2020? Me parece que não.

Seríamos nós, brasileiros, muito egoístas?

Isso não é uma presunção minha, mas uma constatação do World Giving Index divulgado pelo Instituto CAF (Charities Aid Foundation), que mede a generosidade dos países. O Brasil lidera o ranking como país mais egoísta da América Latina. Em 2013 ocupávamos a 91ª posição, junto com a Venezuela. Em 2018, Venezuela ocupou a 107ª posição e nós, a 122ª. Para a pesquisa, eles avaliam alguns dados como: ajudar um desconhecido, doar dinheiro para caridade e fazer trabalho voluntário.

Acredito que há uma sinergia entre a falta de generosidade e o alto índice de transtorno de ansiedade, e atribuo isso ao eu-ismo ou à arte de olhar apenas para o próprio umbigo.

Por isso, neste mês de prevenção ao suicídio, queria reforçar que eu, assim como você, estou nesse mundo louco e luto diariamente pela minha saúde mental. Praticar a empatia é um exercício de rotina que enriquece a nós mesmos e pode transformar o mundo. É só começar a se colocar no lugar do outro.

Eu já comecei a fazer isso. Vamos juntos?

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Gabriela Ruegger
Empresária, sócia e diretora comercial ELM Marketing e Editora Médica (Latinmed). É formada em direito e mestre em Gestão da Sustentabilidade pela Fundação Getúlio Vargas. Possui especialização em mídias digitais e é professora de Marketing em Promoção de Saúde no MBA de Gestão de Promoção de Saúde e Qualidade de Vida nas Organizações, na Universidade Corporativa Abrange, em convênio com o Centro Universitário São Camilo. Deixa sua alegria por onde passa, sempre acompanhado de uma exclamação “Querida(o)!”